: O No-Gi está crescendo rapidamente e mudando o Jiu-Jitsu moderno. Mas será que ele realmente vai ultrapassar o kimono?
O No-Gi Vai Ultrapassar o Kimono?
Durante décadas, o kimono foi a própria identidade do Jiu-Jitsu Brasileiro.
As imagens clássicas de mestres, campeões mundiais e academias tradicionais sempre estiveram associadas ao gi.
Mas algo começou a mudar.
Nos últimos anos, o No-Gi deixou de ser apenas uma modalidade complementar e passou a ocupar o centro das atenções. Grandes eventos, premiações milionárias, transmissões online e atletas mundialmente conhecidos estão impulsionando um crescimento que parece não desacelerar.
A pergunta que muitos praticantes evitam fazer é simples:
O No-Gi vai ultrapassar o kimono?
A resposta talvez seja mais complexa do que parece.
E entender essa transformação pode ajudar você a enxergar para onde o Jiu-Jitsu está caminhando.
O crescimento acelerado do No-Gi
Poucos esportes evoluíram tão rapidamente quanto o grappling sem kimono.
Enquanto o Jiu-Jitsu tradicional manteve uma estrutura relativamente estável durante décadas, o No-Gi passou por uma verdadeira revolução.
Atletas como Gordon Ryan, Craig Jones e Nicholas Meregali ajudaram a transformar o grappling moderno em um espetáculo mais acessível para o público geral.
A velocidade das lutas aumentou.
As quedas ganharam mais importância.
A influência do wrestling cresceu.
E o esporte passou a dialogar diretamente com o MMA.
O resultado?
Uma geração inteira começou a entrar no Jiu-Jitsu tendo o No-Gi como principal referência.
O que antes era um complemento passou a ser, para muitos, o objetivo principal.
Por que o No-Gi está atraindo tantos praticantes?
Existem motivos muito claros para esse crescimento.
1. Curva de entrada mais simples
Para um iniciante, comprar um rashguard e um shorts costuma ser mais barato do que adquirir um kimono de qualidade.
Além disso, muitos movimentos parecem mais intuitivos para quem nunca treinou artes marciais.
2. Proximidade com o MMA
O MMA continua sendo uma das maiores vitrines das artes marciais.
Como não existe kimono dentro do octógono, muitos praticantes enxergam o No-Gi como mais próximo de uma aplicação de combate real.
3. Ritmo mais acelerado
Sem pegadas nas mangas e lapelas, as transições acontecem em alta velocidade.
Isso cria lutas visualmente mais dinâmicas, algo que costuma atrair espectadores.
4. Potencial de profissionalização
Eventos profissionais de grappling têm investido cada vez mais no formato No-Gi.
Isso gera maior visibilidade para atletas e patrocinadores.
O kimono está ficando para trás?
Muitos acreditam que sim.
Mas os fatos sugerem outra realidade.
O kimono continua sendo a principal porta de entrada para milhões de praticantes em todo o mundo.
Além disso, grande parte da cultura do Jiu-Jitsu foi construída em torno dele.
Faixas.
Graduações.
Cerimônias.
Tradições.
Métodos de ensino.
Tudo isso está profundamente conectado ao treinamento com gi.
A verdade é que o kimono não está desaparecendo.
Ele continua ocupando um espaço que o No-Gi dificilmente conseguirá substituir completamente.
O que a ciência mostra sobre a evolução do esporte?
Quando observamos a literatura científica, encontramos um padrão interessante.
O estudo “Injury prevalence among Brazilian Jiu-Jitsu practitioners globally”, conduzido por Peter M. Stegerhoek e colaboradores e publicado na revista BMJ Open Sport & Exercise Medicine em 2025, analisou centenas de praticantes e encontrou uma incidência de 5,5 lesões por 1000 horas de treino, sendo a maioria delas durante sparrings. O estudo também destacou que o Jiu-Jitsu continua crescendo globalmente, ampliando sua base de praticantes e aumentando sua relevância esportiva.
Em termos simples:
Quanto mais o esporte cresce, mais ele se diversifica.
E modalidades diferentes tendem a coexistir.
Outro trabalho importante, “Injury Rate and Pattern Among Brazilian Jiu-Jitsu Practitioners”, publicado por Christopher Moriarty e colaboradores em 2019, mostrou que aproximadamente 59% dos praticantes relataram ao menos uma lesão em seis meses de prática. Os pesquisadores observaram que diferentes estilos de treinamento produzem diferentes padrões de adaptação técnica e física.
A conclusão prática é clara:
O esporte está evoluindo.
Mas não necessariamente substituindo suas raízes.
O que dizem os grandes especialistas?
O renomado treinador de grappling John Danaher costuma defender que Gi e No-Gi são sistemas complementares e que a discussão sobre qual é “melhor” muitas vezes é menos importante do que entender os princípios universais do controle corporal.
Já Bernardo Faria argumenta frequentemente que muitos praticantes entram na empolgação do crescimento do No-Gi sem perceber que diversas habilidades fundamentais continuam sendo desenvolvidas de maneira extremamente eficiente através do treinamento com kimono.
Essas opiniões revelam algo importante:
A elite do esporte raramente trata a questão como uma guerra.
Quem mais evolui costuma estudar ambos os universos.
A visão filosófica: a falsa guerra entre tradição e inovação
Na filosofia de Aristóteles existe um conceito conhecido como “justo meio”.
A excelência não surge dos extremos.
Ela surge do equilíbrio.
O mesmo acontece no Jiu-Jitsu.
O kimono representa tradição.
Paciência.
Detalhe técnico.
Controle.
O No-Gi representa adaptação.
Velocidade.
Eficiência.
Evolução.
O erro está em acreditar que um precisa destruir o outro.
Historicamente, quase toda inovação relevante nasce sobre os ombros da tradição.
O No-Gi moderno existe porque gerações de praticantes desenvolveram fundamentos dentro do kimono.
Sem essa base, grande parte do sistema atual sequer existiria.
Talvez a verdadeira pergunta não seja:
“Qual vai vencer?”
Mas sim:
“Como ambos continuarão evoluindo juntos?”
Como aplicar isso na prática
1. Pare de escolher lados
Treine para aprender, não para defender uma bandeira.
2. Entenda seus objetivos
Se você pretende competir em eventos No-Gi, adapte sua preparação.
Se ama o ambiente tradicional do kimono, aprofunde-se nele.
3. Desenvolva fundamentos universais
Controle de distância.
Base.
Pressão.
Timing.
Esses conceitos funcionam em qualquer modalidade.
4. Aprenda wrestling
Independentemente do uniforme, as quedas estão se tornando cada vez mais importantes.
5. Observe as tendências sem abandonar os fundamentos
A inovação acelera a evolução.
Mas os fundamentos sustentam a longevidade.
Então, o No-Gi vai ultrapassar o kimono?
Talvez em audiência.
Talvez em visibilidade.
Talvez em profissionalização.
Mas ultrapassar não significa substituir.
O futebol de campo não eliminou o futsal.
O xadrez rápido não eliminou o xadrez clássico.
Da mesma forma, o No-Gi dificilmente apagará a importância histórica e técnica do kimono.
O cenário mais provável não é uma vitória.
É uma coexistência.
Com o No-Gi crescendo como produto esportivo moderno.
E o kimono permanecendo como uma das bases mais importantes do desenvolvimento técnico do Jiu-Jitsu.
A pergunta final não é qual deles sobreviverá.
A pergunta é:
Você está preparado para evoluir junto com o esporte?
FAQ
O No-Gi está crescendo mais rápido que o kimono?
Sim. Principalmente em eventos profissionais, audiência digital e proximidade com o MMA.
O kimono vai desaparecer?
Não existem evidências que indiquem isso. O kimono continua sendo a principal forma de treinamento em inúmeras academias ao redor do mundo.
É melhor treinar Gi ou No-Gi?
Depende dos seus objetivos. O ideal é utilizar os benefícios de ambos para construir um jogo mais completo.
Leia também
- O wrestling está mudando o Jiu-Jitsu moderno?
- Você está treinando ou apenas repetindo movimentos?
- A obsessão por finalizar está destruindo seu jogo?
Sugestões de links externos
- IBJJF (regras e campeonatos)
- ADCC (eventos e rankings internacionais)
📚 REFERÊNCIAS
- Stegerhoek PM et al. Injury Prevalence Among Brazilian Jiu-Jitsu Practitioners Globally. BMJ Open Sport & Exercise Medicine, 2025.
- Moriarty C et al. Injury Rate and Pattern Among Brazilian Jiu-Jitsu Practitioners. Clinical Journal of Sport Medicine, 2019.
- Santos SP et al. Epidemiology of Injuries and Their Implications in Jiu-Jitsu Athletes. 2024.
- BMJ Sports Medicine. Brazilian Jiu-Jitsu: State of the Art. 2021.